Um pouco de História
Das duas uma... foi assim que, cerca de 1884, os responsáveis de duas formações musicais de Caneças resolveram questões antigas, esqueceram rivalidades acesas demais e uniram esforços e paixões comuns. Tinha nascido a Sociedade Musical de Caneças.
Não há certezas quanto a datas, nem sequer relativamente aos factos.
Das raízes da história da Banda de Caneças, tudo ou quase tudo o que sabemos hoje, chegou até nós sob a forma de "conta-se que..." ou "avô de fulano estava lá e dizia...". Apesar disso é possível reconstituir alguns cenários e encontrar referências de actividade musical organizada na povoação de Caneças, recuando até meados do seculo XIX.
A Real Fanfarra de Caneças e a Avante Canecense, da qual não existe, infelizmente, grande quantidade de informação, eram dois exemplos de agrupamentos musicais da altura. Sabe-se que a rivalidade entre elas era grande e a disputa pela superioridadede e preferência popular levava-os a situações desagradáveis e resolvidas de forma pouco recomendável, ainda que isso fosse situação corrente naquele tempo.
Por razões que se desconhecem, mas que se adivinham, por serem comuns à maioria das fusões do género, quando o que está em causa é a sobrevivência e o progresso das ideias, as fanfarras de Caneças resolveram unir-se e criar assim a Sociedade Musical de Caneças, com uma banda filarmónica única.
Uma vez mais a data é incerta mas a lógicados factos leva-nos a deduzir que a fusão terá ocorrido nos finais de 1884, início de 1885. A data de fundação adoptada foi, presume-se, a da Real Fanfarra de Caneças, por ser talvez a mais importante naquela altura.
Ter-se-á aproveitado então uma fase brilhante da mesma, pois havia ganho um 1º Prémio Pecuniário, em Julho de 1884, durante a Exposição Agrícola realizada na Tapada da Ajuda, em Lisboa. O sucesso foi tal que a data ficou assinalada com um estandarte em tecido acetinado, bordado a ouro, a mando da Rainha D. Amélia, que quiz assim testemunhar o agrado com que a Fanfarra dos Saloios de Caneças se apresentou a concurso. O Estandarte encontra-se exposto na Sala da Direcção. Embora bastante deteriorado e dificilmente recuperável, mostra ainda traços da sua beleza inicial.
Foram passando os anos e a nova colectividade evoluiu. A Banda Filarmónica era presença assídua em Festas de cariz popular, Cortejos Religiosos e outras manifestações de caracter cultural, em Caneças e nos arredores. Povoações próximas, como Camarões, Montemor, D. Maria e Aruil, não dispensavam a contribuição da Banda de Caneças para abrilhantar os festejos. Os seus serviços eram inclusivé requisitados por particulares por ocasião de inaugurações, nascimentos ou baptizados.
Durante muitos anos a Banda andou "com a casa às costas", ensaiando no espaço disponível no momento, fosse um armazém, ou a divisão da casa de um dos responsáveis da colectividade. Passaram as duas grandes guerras e, embora a segunda não tivesse contado com a nossa presença, foram períodos dificeis para a freguesia. Apesar disso as pessoas mantiveram viva as tradições e a Banda continuou o seu caminho.
Cerca de 1950 começou a ganhar forma o projecto da sede própria. Um grupo de associados encarregou-se de conseguir os necessários apoios e, com ajuda de muitos outros, que dispensaram o seu tempo livre, construiram o edificio-sede, no Largo Vieira Caldas, bem perto do local onde habitualmente se desenrolava a vida social da aldeia e acontecia a maioria das actividades de lazer. A inauguração ocorre a 9 de Setembro de 1945.
Todas as actividades da colectividade beneficiaram com o facto, e a banda mais do que todas. A partir daí existe um local para a guarda dos instrumentos, um espaço fixo para ensaios e também um recinto fechado para quando o tempo as impedia no exterior e abriam-se igualmente outras possibilidades.
Exemplo disso a Orquestra Ideal, formada a partir de elementos da filarmónica, na tradição das Jazz Bands da altura, que animavam as matinées e soirées dançantes, que muitos Canecenses se recordam ainda.
Em paralelo a Banda participava activamente na vida da aldeia. Caneças era ainda um pequeno burgo onde quase todos se conheciam, e era relativamente fácil ter algum familiar ligado à filarmónica. As tradicionais voltas saloias, populares excursões de Canecenses que iam até à Foz do Arelho e tinham, no regresso, paragem obrigatória na Boca do Inferno, em Cascais, eram muitas vezes acompanhadas pela Banda.
Quase cem anos depois, perante difculdades directivas sem solução aparente, a Sociedade uniu-se ao Clube Desportivo de Caneças; nascia, em Janeiro de 1973, a Sociedade Musical e Desportiva de Caneças, o desporto e a cultura seguiam agora juntos em Caneças, e a Banda Filarmónica seguia, também, o seu caminho. Com esta designação a nova colectividade mantinha privilégios adquiridos e, fundamentalmente, mantinha a fundação, continuando a ser por direito próprio uma das mais antigas colectividade do país.
Ao longo de todos estes anos a Banda de Caneças tem mantido actividade regular, alternando momentos menos bons com outros de algum brilhantismo; no seu currículo contam-se participações em inúmeros Festivais e Encontros de Bandas, Procissões, Arruadas e outras manifestações de caracter cultural e desportivo, em território nacional e no estrangeiro, de que são prova os inúmeros troféus expostos na Sede da Colectividade.
Em 1985, com o crescimento do interesse pela música manifestado por muitos jovens da freguesia, decidiu-se a criação de uma Escola de Música na colectividade, com ensino gratuito, garantindo dessa forma a sobrevivência da banda.
Após um período de crise, a banda entrou numa fase de profunda reestruturação e renovação dos quadros em 1995; aproveitou muito do trabalho que vinha sendo feito na Escola de Música da colectividade, sob a orientação do actual Maestro, Carlos Gomes, e conta hoje, em média, com 50 figuras.
Infelizmente os arquivos existentes não permitem alinhar um historial mais completo. As incorreções são aliás possíveis em relação a muito do que fica aqui registado.
Ficam assim as memórias mais recentes de que se destacam, entre 1989 e 1999, as participações nos Festivais Internacionais realizados em Loures, quando Caneças fazia parte daquela Autarquia, deslocações a Paris em Junho de 1992 e Maio de 1999, participando, nesta ultima, no VIII Festival de Musique de Philarmonique Portugaise, integrado nas Comemorações do Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas em França e, mais recentemente, viagem às ilhas do Pico e Faial, nos Açores, em Agosto de 2002, apresentando-se em concerto na cidade da Horta, por ocasião das Festas do Mar e finalmente a deslocação da Benidorm, onde lhe foi dada a oportunidade de "apadrinhar" o I Festival de Bandas Civis Ciudad de Benidorm. Em 2005 a Banda organizou, pelo sexto ano consecutivo, o seu Encontro de Bandas Amadoras. O 1º, em Março de 2000, contou com as bandas de Loures, Odivelas e Charneca. Depois disso o Encontro de Bandas da SMDC chegou a muitos pontos do país e recebeu as visitas de representantes de Lavre, Crestuma, Mortágua, Arrentela, Catujal, Olivais e, masi recentemente, dos nossos vizinhos espanhóis, de Parcent e Benidorm. |
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